10
set
10

Para despir.

A repetição perniciosa que rompe com os fios delicados que foram tecidos com o cuidado de quem não era feliz.  De quem só teve como sentimento genuíno a dor que esteve no útero desde pequeno. Porque na dor, a lágrima não corre como gota voluntária. A lágrima corre ácida matando as células dos sonhos. Não havia regeneração para esses tecidos que a imaginação tinha como forro do estômago.  Antes de tudo, as pessoas deveriam ver primeiro as vísceras. O estômago deveria ser exposto ao invés do aperto de mão. Por que não perguntar se você sente dor? É sempre a mesma troca de superfícies. É uma ilusão pensar que algumas pessoas estão ali andando. Na rua, elas estão de joelhos implorando pelo rosto do milagre. No sorriso, a gente gengiva sangra. A água que corre na rua provém de uma união de hemorragias. Atenção para o interior que grita. Atenção para a obsessão que pode estar anunciando o vôo de um corpo em algum edifício. Atenção para a doçura que nasce de um esforço divino no meio do caos. Você sabia que eu sinto dor? Não. E nem precisa estar dentro para saber. Costurei o meu interior para ninguém entrar. Fios, voltas e nós. Quase me sufoquei com isso. Mas um dia a energia solar nasceu em todo seu espectro de cores, e na pele, de um sutil engenhoso, ele dissolveu a ligação que unia violentamente todos os órgãos.  Ele trazia o amor em todo o corpo, Não sabia que alguém poderia conter toda genuína beleza. Eram gumes que abriram a pele e o corpo em toda sua anatomia? Não sei. É nele que mora o encanto antes só visto na arte. É nele que existia uma cadeira fazia onde pude me sentar. Senti todas as contrações da casa e de suas mobílias. Uma doçura que jorrava feito correnteza. Minhas mãos desde o começo estiveram estendidas. E como gesto nobre e divino, de quem carrega na palma da mão o verdadeiro, ele estendeu as mãos, e surgiu a explosão cósmica que ao invés de destruir, união todas as coisas. O amor cai como um bloco inteiro bem no meio da nossa casa. E, agora, o amor habita aqui. O pra sempre. Mesmo que apontem a finitude da vida. Eu queria que ele soubesse de muitas coisas ainda não ditas, coisas que ainda estão tomando forma. Mas posso dizer para ele que no corpo todo, em todo seu interior, corre a doçura nascida só nele. Que a intensidade faz nascer o antes desconhecido. Que é nele que vejo o reflexo do céu. O sentimento não só eleva, ele constrói uma torre descomunal de sentimento onde eu posso expor os seios, e irradiar toda a infância. A infância!  Eu nunca vi um rosto tão humano. É nele que toco para sentir a vida. Em mim, ele faz brotar em solo firme o indefinidamente, infinito e um túnel onde muitos trabalhadores constroem a todo instante paredes de teto aberto para o céu. Tenho outra coisa a dizer : No meu corpo, que é mar onde chovia o tempo todo, nele habitam os pensamentos obsessivos, a asfixia das paradas e uma intensidade que machuca e dói por ser inesperada e parecer infinita. E eu tenho medo. Não quero que essa violência. Ponto. Você mora em mim, e eu não suportaria ver você partir. Tu iluminaste com teu corpo o que era o vão feito por corredores sinuosos. Por mais que eu procure usar termos difíceis e poéticos para dizer a última coisa, a simplicidade sempre me atravessa:  Você é a pessoa mais importante da minha vida. Ver você tirando toda a mobília da nossa casa me levaria ao vôo. Eu amo você e quero rodar com você para sempre num interminável carrossel de luz.

27
ago
10

Essa, sim, é a maior violência.

Nem a obscuridade, nem os sonhos, nem a exclusão, nem os filetes de sangue, nem os inúmeros comprimidos, nem a asfixia doeria mais do que O perder você.

27
ago
10

A rubra movimentação no jardim interior. Vamos lá, golpes.

Essa coisa inominável e cheia de gumes. A cada movimentação um um filete de sangue brota pelos olhos. Eu não quero que o corte abra o interior que agora é só jardim. Eu sei que esse movimento quer dissipar as mãos estendidas. Só que agora, essas mãos estendidas habitam no âmago, e lá fizeram casa, onde os dois corpos deitam para que, enfim, o sol lunar possa eternizar a magnificência do amor.

17
ago
10

Porque o tocar pele com pele, lábios com pele, o toque como um todo é cósmico.

Entre todos os “você é”, que possui inúmeros corpos e rostos, você também é cada lágrima solidificada que pedia pelo milagre.

“Não acabarão com o amor,

nem as rugas,

nem a distância,

Está provado,

pensado

verificado.

Aqui lanço solene

minha estrofe de mil dedos

e faço o juramento:

Amo

firme

fiel

e verdadeiramente.”

Maiakovski.

13
jul
10

Dá-me do teu vinho, para que essas gotas salinas sejam violentadas quando passarem pelas proeminências dos nossos corpos.

(Foto: Erika Svensson)

Te dou, agora, cada gota salina, para a edificação de voluptuosas torres sentimentais que aniquilaram o exílio que o outro, em repetida violência, impôs. O, também, colorir do refúgio interior que costuma formar tecidos intransponíveis, formar a violação da infância que muitas vezes é confundida com o vento do amadurecimento que faz você cair “inteiro”. Não, o exílio não emudece os órgãos. Do exílio, nasce um grito interior que denuncia a fúria da movimentação do mundo em nós. Os pés dos teus sonhos tocaram no meu jardim interior, até que o teu corpo inteiro – irradiando luz pelas frestas –  deitasse com o peito nu de vísceras expostas ao sol. A fusão dos filetes dourados de raios de sol com os filetes rubros que vem de ti. Tu atingiste o ventre onde agora  quero mergulhar toda minha anatomia para tocar em você. O que dói em um sôfrego latejar de gotas ásperas e salinas, hoje se suicida. O que dói alegremente pede para que tu deites comigo e dispa-me. Dispa-me, Senhor. Arranque-me as roupas e veja um milhão de sóis.

22
jun
10

O pincel molhado pelas lágrimas que choram em cores pelos poros.

A constante comunicabilidade do incomunicável. Diria até que constante, contínua e árdua luta. Para que o outro fique sabendo, para cristalizar o audiovisual cotidiano, que é seiva bruta, em palavra, que é seiva elaborada. Encontrei a palavra cósmico, enovelar, combustão, desatino e incomensurável. As repetências delas no discurso denunciam o carrossel sentimental incessante. No meu corpo, que também é tela, quero pinceladas que variam da cor da tua epiderme, até as cores que nascem de partos na tua retina. Além das mãos estendidas, retinas também estendidas.

20
jun
10

A cólera divina acenando.

(Foto : Joana Linda)

Estabilizadores. Estabilização, controle e harmonia.  Conseguindo tocar isso com as pontas nos dedos, mas sempre deslizando por quilômetros de pele.  A última lágrima no terceiro olho da cara, como diria Dalton Trevisan.  É difícil saber que o consciente mentalmente transtornado se sobrepõe ao consciente feliz e até o inconsciente. Uma gula ofegante enorme. Eu sei que você tem traços materializados em um rosto. Eu sei. Eu só queria tocar nisso, só queria ver o que há por trás desse véu que é um quadro negro. Giz.  Antes, eu costumava sorrir pra dor. Não seria exatamente sorrir. Alimentava-me, e ela me dava os frutos na forma de escrita violenta. A dor atingindo como um dardo atravessando algum órgão. A hemorragia de palavras. Sim, eu agradecia por isso, por mais que a pele estivesse aberta. Tenho todas as cicatrizes, mas você insiste em mais cortes. Você consegue virar minha mente contra mim, todo majestoso. Tenho o amor, agora. Ainda não desistiu de mim como companheira cheia de fidelidade?  Fui fiel. A infância não vem através de você. Ninguém gosta de ler sobre a dor, e isso dói. As pessoas morrem na obscuridade. Acho que eu gostava de você justamente por saber que não iria perecer nessa obscuridade. Tu me olhaste, me reconheceu e se infiltrou aqui. Deteriorando, dor demorada e grandes euforias para me elevar e depois receber o golpe. Mas não derrubaste minha poesia, nem os sonhos. Só que esses sonhos costumam me levar para o escuro. Eu costumava acordar de órgãos pra fora, e tu aproveitaste disso, não é? Eu sei o que tu olhas nos meus olhos, aqui. A retina foi finalmente pintada como tela, e nela está ele, o amor. O que você quer? Os pulsos estão aqui firmes. Me render? Nunca. Agora sim a boca recheada para dizer: NUNCA. Eu quero a minha casa, quero encostar o amor no ventre. Chega de nomear os demônios, a parte laboriosa agora é nomear a abstração bonita , mesmo sabendo que as palavras ainda precisam adquirir uma forma difícil para a expressividade cósmica. Finalmente estou agarrando a mão dentro de alguém.  É tão bonito. O amor também agarrando a mão dentro de mim. A profundidade como sinônimo de interior. Agradecimento em suspiros.